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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Lancetti (1989) é outro autor militante do movimento da luta antimanicomial, que expressa em seus artigos a posição de que as práticas psi de forma geral são sinônimas de psicoterapia individual e são menos progressistas que a psiquiatria e a psicologia social, embora em seus textos não fique claro o que embasa essa afirmação.

Este autor responsabiliza as chamadas ciências da alma pelos tratamentos violentos, maus tratos e degradação da vida dos pacientes. Considera tais ciências são responsáveis por criar barreiras que impedem o avanço da reforma psiquiátrica.

A tecnologia psicoterápica, ou seja, o grupo, a historização de um quadro, a interferência farmacológica nos corpos ou o trabalho dos vínculos, só opera produtivamente se disposta propositalmente como um artifício... O operador não é um intérprete e nem se faz de morto, é um vivo, um desmanchador de transferência, um agenciador de encontros e processador de atos... A pragmática de desconstrução manicomial é o reinado do paradoxo: doença mental e loucura, afirmação do poder médico e diluição da identidade profissional, cuidados terapêuticos e liberação das potências estéticas. No seio deste limiar se produz um saber e um método que experimenta a convivência com o acaso e que ao mesmo tempo requerem rigor e processualidade (Lancetti, 1992, p.146).

Deleuze (1990) é ainda mais duro em suas críticas à psicanálise. Aponta que a psicanálise impede toda a produção de desejo e fala do inconsciente como uma instância a ser reduzida, destruída, controlada. Afirma que Freud o concebeu como o negativo do consciente, como um inimigo. Considera que ele trata de falhas, conflitos sem fundamento, compromissos débeis e jogos de palavras grosseiros, que impedem as pessoas de falar livremente. Sugere que se inverta a lógica de Freud de que não temos controle sobre o inconsciente, mas sim que as pessoas passem a produzi-lo, pois o inconsciente deve ser algo a ser fabricado, um espaço social e político a ser conquistado.

Apesar dessas concepções da reforma psiquiátrica, toda a burocracia do CAPS é baseada no modelo médico e necessita que praticamente todos os papéis emitidos e laudos recebam a assinatura dos psiquiatras e um CID (código internacional de classificação das doenças). Legalmente os médicos também são obrigados a responder por uma parcela quase que total de responsabilização em relação a possíveis riscos aos quais o paciente possa expor-se, enquanto estiver sob os cuidados da instituição. A extensa burocracia constitui um poderoso entrave a diversas propostas de mudanças na estrutura organizacional.

Tenório (2002) escreve que, apesar dos questionamentos feitos à clínica, a reforma psiquiátrica não pode se furtar de enfrentar o problema das práticas de cuidado em saúde mental, já que a clínica é o principal dispositivo social desenvolvido para intervir sobre o sofrimento psíquico.

Bezerra (1996) discute o lugar da clínica na saúde mental, já que ela acaba sendo subvalorizada por um grupo de profissionais ou supervalorizada por outro grupo, que superdimensionam a importância das práticas psicoterápicas individuais e grupais no tratamento. Acredita ser necessário desenvolver um terreno comum para discutir os conceitos que sustentam as ações que compõem o tratamento.

Baremblitt (1997) apresenta em seus artigos uma defesa da clínica como um conceito amplo (clínica ampliada), que abarca todas as práticas desenvolvidas pelos profissionais de saúde mental. Assegura que a clínica não pode ser reduzida ao domínio de uma única teoria, de um método ou de uma técnica, e muito menos a uma prestação de serviços remunerados. Ela pode se desenvolver em qualquer lugar em que exista alguém necessitando de auxílio. Enfatiza que isso não implica uma liberdade incondicional, mas em uma atitude de evitar que estereotipias de comportamento impeçam a interação e a escuta. Compreende a clínica como o lugar de encontro e convivência com as diferenças.

Por outro lado, os profissionais psi vêm desenvolvendo uma adaptação do método psicanalítico às práticas institucionais. Neste trabalho há uma referência ao método psicanalítico, mas penso que o mesmo raciocínio se aplica a qualquer abordagem psicoterápica.

Farkas (1997) afirma que em seu trabalho de "psicanalista sem divã", ou seja, em um contexto institucional, os seus caminhos de psicanalista e de cidadã têm propiciado um intercâmbio enriquecedor e cada vez mais se transformam em papéis mais harmônicos. Esse pode ser considerado um trabalho de psicanalista, pois conta com instrumentos característicos da psicanálise: escuta privilegiada, conhecimento de mecanismos psíquicos e uma noção de transferência, levada em conta dentro de um setting ampliado. A possibilidade de trabalhar como agente de saúde mental proporciona uma ampliação da função terapêutica, uma vez que o contexto institucional demanda do psicanalista uma postura peculiar. Aponta ser necessário estar consciente das múltiplas transferências que ocorrem no contexto institucional, da falta de privacidade e de procurar fazer um bom uso desses elementos, incluindo-os no tratamento. Nesse contexto, torna-se necessário aprender a otimizar os recursos e aceitar os limites de nossa tarefa, dentro de um conceito de "potência relativa" (Orsini, 1997). É necessário ir ao encontro da realidade e dos potenciais dos pacientes e ter espaços para a reflexão e discussões entre os profissionais da equipe.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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