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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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4) FUNÇÕES DO TERAPEUTA

Utilizarei o termos: terapeuta, analista ou coordenador de grupo, como sinônimos. A função do coordenador é compreender como as atitudes e falas de cada membro do grupo repercutem no coletivo, assim como a reação de cada ego frente ao problema comum e como se dá a constituição dos vínculos entre seus membros. Pode também ter como objetivo despertar a curiosidade sobre o mundo interno e a busca de significações, assim como de uma entrada na ordem do simbólico; ou ainda, da desorganização das reações defensivas. Busca o rompimento de círculos neuróticos e de comportamentos estereotipados (Svartman, 2003).

A interpretação, instrumento terapêutico por excelência, se encarrega de fazer a ligação, conexão da teoria com a prática clínica. Trata-se de um ato verbal criativo, que busca traduzir idéias, a seqüência de pensamento, atitudes e comportamentos. Para que uma interpretação seja formulada, será necessária uma operação complexa por parte do terapeuta que engloba sua visão pessoal de mundo, seu referencial teórico, sua concepção sobre o objetivo do processo terapêutico e sua estabilidade ou instabilidade emocional no momento. Uma interpretação dirigida a um participante reverberará nos demais, dependendo de níveis regressivos nos quais cada um se encontre, auxiliando no insight grupal, dentro do contexto da matriz grupal. (Berenstein e Puget, 1987).

Para Cortesão (1989), uma interpretação será eficiente se puser em andamento o processo mutativo por meio da elaboração, que consiste em um insight e em uma conseqüente mudança de estrutura e de comportamento (In Fernandes, W.J., 2003).

Além do momento e do conteúdo da intervenção, a forma como ela ocorre pode alterar o seu valor, o que torna importante considerar, por exemplo, o timbre de voz do terapeuta no momento da interpretação, o que pode denunciar a interferência de aspectos contratransferenciais (patológicos) ou uma instabilidade emocional do terapeuta.

Zimerman (1997) define que a técnica interpretativa grupal envolve a discriminação das individualidades, comparadas com o contexto grupal; ela deve valorizar aspectos extratransferenciais, assim como a oferta de esclarecimentos, comentários, confrontos, questionamentos e intervenções que promovam abertura para novas associações; deve, também, destacar as funções egóicas, valorizar os aspectos positivos dos participantes e sintetizar as principais experiências afetivas, visando a uma integração grupal. A intervenção do terapeuta só é denominada de interpretação quando suas falas forem formuladas a partir de motivações inconscientes. Podem ocorrer intervenções dos pacientes que se pareçam muito com interpretações, mas alguns autores preferem reservar esse termo para as colocações do terapeuta.

Também é fundamental que o terapeuta seja capaz de favorecer um fluxo rico de associações, de forma a evitar ocupar um espaço demasiado no grupo, o que interferiria em um bom andamento do mesmo.

Para Pichon-Rivière (1980), o papel do terapeuta seria o de permanecer atento, interpretar pouco e verificar as formas de interação grupal: observar todos os participantes, as faltas, os atrasos, quem chega cedo, os silêncios e ouvir o que é verbalizado, identificando não só o quê, mas como e quando algo foi dito, assim como em que contexto grupal. Destaca também a importância da observação dos gestos, dos olhares e do tom de voz dos participantes, assim como há a necessidade de estar atento à comunicação com os outros e consigo mesmo, de modo a perceber quando a comunicação tem êxito e quando fracassa. Torna-se importante captar quando emerge uma expressão criativa ou destrutiva no vínculo ou ainda manifestações de ataque invejoso ao mesmo: gagueira, alterações de tons de voz e diferentes tipos de acting out . Essas idéias partem do princípio de que a voz comunica algo do conteúdo da mensagem verbal e da pessoa que fala, além de apelos ou intenções inconscientes.

Sempre que estamos em contato com um grupo emoções são despertadas e somos influenciados pelo mesmo. O grupo pode despertar no terapeuta cargas emocionais de irritação ou desgosto, sempre que houver um sentimento de desvalorização presente, o que não é algo fácil de digerir. Nesses casos, por mais que sejam usadas palavras delicadas, a irritação sempre será transmitida ao grupo por meio de vias não-verbais.

Zimerman (1999) salienta as defesas típicas da posição esquizoparanóide, nas quais ocorre o predomínio do Suposto básico de Luta e Fuga. Os vínculos podem adquirir característica narcisista (baseado em relações de poder), histérica (com o predomínio de dramas existenciais), obsessiva (necessidade e tentativas de controle), fóbica (comportamento de evitação), perversa (desvios de comportamento), psicopática (actings anti-sociais), etc. Nesse contexto, é comum a eleição de um bode expiatório, ou de um indivíduo depositário dos aspectos bons e assim por diante, assim como nas famílias aparece o "paciente identificado", portador e porta-voz da doença familiar.

Em função de tudo isso, torna-se imprescindível ao profissional que trabalha com grupos, a análise pessoal e, se possível, passar por terapia grupal.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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