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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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No capítulo três discuto as práticas grupais nas instituições, dentro da abordagem da psicanálise das configurações vinculares, para a qual tiveram influências marcantes psicanalistas como Melanie Klein, Bion e Pichon-Rivière. Os conceitos apresentados nesse capítulo serão retomados durante a apresentação e discussão dos resultados da pesquisa.

O capítulo seguinte aborda justamente o método a ser adotado. Descreve em detalhes a forma como será desenvolvida esta pesquisa psicanalítica. Apresenta os participantes, explica como se deu a escolha dos instrumentos de coleta de dados e descreve o processo de coleta e análise dos mesmos.

Os momentos de mudança costumam sempre trazer consigo instabilidade, dificuldades e angústias, pelo fato de termos que desconstruir saberes, rotinas e/ou formas de fazer já conhecidas para poder dar espaço para um novo processo, espaço para o inesperado, que geralmente acarreta angústias e medos. Quando as mudanças envolvem instituições públicas e muitas pessoas que dependem de tratamento, elas implicam uma grande responsabilidade dos protagonistas envolvidos no processo.

A mudança que vivemos fez com que pacientes, equipe de profissionais e membros das instituições responsáveis pela administração do HD/CAPS atravessassem momentos de muito stress , o que acarretou um real prejuízo à qualidade da assistência prestada no HD/CAPS. Essas questões serão discutidas durante a apresentação e discussão dos resultados da pesquisa, através das "Assembléias" realizadas na presença de profissionais e pacientes, durante o período em que as mudanças ocorreram.

O título desta dissertação: - "A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental" - sugere o quanto esse processo foi custoso para todos os envolvidos.

A palavra Caos segundo o Dicionário Hoauiss de Língua Portuguesa possui pelo menos três significados que interessam a este trabalho. Trata-se de uma mistura de coisas em total desequilíbrio, em estado de desarrumação e/ou de confusão. Também pode significar uma mistura de idéias e sentimentos, ou seja, um estado de confusão mental. Além destes dois significados, há ainda o significado mitológico. Brandão (1986) afirma que a palavra Caos se originou do grego khaós e significa abrir-se, abismo insondável, massa informe e confusa. Representa, a personificação de um vazio primordial que precedeu e propiciou o nascimento de todos os seres e da realidade do universo.

... Na cosmogonia egípcia, o Caos é uma energia poderosa do mundo informe e não ordenado, que cinge a criação ordenada, como o oceano circula a terra. Existia antes da criação e coexiste com o mundo formal, envolvendo-o como uma imensa e inexaurível reserva de energias, nas quais se dissolverão as formas nos fins dos tempos. Na tradição chinesa, o Caos é o espaço homogêneo, anterior à divisão em quatro horizontes, que eqüivale à criação do mundo. Esta divisão marca a passagem ao diferenciado e a possibilidade de orientação, constituindo-se na base de toda a organização do cosmo. Estar desorientado é 'entrar no Caos', de onde não se pode sair, a não ser pela intervenção de um 'pensamento ativo', que atua energeticamente no elemento primordial(Brandão, 1986, p.184).

Segundo o mito grego, do Caos saíram Géia, Tártaro e Eros. Géia representa a terra em sua função materna, o lugar sólido de onde se originam todos os seres. Tártaro representa o local de suplício permanente e eterno dos grandes criminosos mortais e imortais. E Eros representa o amor, a carência em busca de uma plenitude. Um sujeito em busca de um objeto.

Portanto, o Caos tem tanto um sentido de desorganização, de estado de confusão mental, como de espaço de construção a partir de um vazio. Os seres humanos sem sua capacidade de pensar e planejar ações caem no Caos . No caso dos profissionais de saúde mental, por ser o pensamento a nossa ferramenta de trabalho mais importante, a sua ausência pode nos colocar de volta no Caos . Caos assim pode ser comparado a um dos sentidos que a psicanálise dá ao inconsciente: reservatório de impressões, fantasias, desejos, ainda não alfabetizados pelo princípio da realidade.

Essas colocações mostram a importância e a responsabilidade dos administradores (gestores) e equipes de saúde mental, ao planejarem e implementarem mudanças na área. Essas envolvem vidas humanas e quando se trata de pacientes psicóticos, que possuem um aparelho psíquico bastante frágil e sensível a responsabilidade aumenta ainda mais.

Refletir sobre esse processo de mudanças foi importante, pois pôde me ajudar a elaborar psiquicamente parte desses acontecimentos, que resultaram em fortes vivências emocionais. Dessa forma tornou-se possível aprender com esse tipo de experiência. Afinal, mesmo os profissionais mais experientes são passíveis de cometer erros e estes podem vir a se constituir em grandes oportunidades de aprendizado e crescimento.

Espero que meus achados possam trazer uma oportunidade de reflexão para a equipe do CAPS, de outros serviços de saúde e dos profissionais responsáveis pela administração desses equipamentos públicos e privados. A possibilidade de análise desse processo que vivemos pode estimular a discussão deste momento histórico sob diversos pontos de vista. Seria importante não deixar eventos sentinelas, como este, sem possibilidades de reflexão e elaboração.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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