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A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental Imprimir E-mail
Por Ana Carla Silvares Pompêo   
31 de maio de 2004
Índice de Artigos
A vivência do caos: uma experiência de mudança em uma instituição de saúde mental
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Berlo (1979) nos alerta para o fato de que o fundamental no processo de comunicação é que o sentido encontra-se sempre no receptor e não na mensagem ou nas palavras.

Britton (2003) fornece uma importante contribuição nesse sentido, quando desenvolve o conceito de crença e demonstra que constantemente confundimos crenças com conhecimento e passamos a considerá-las fatos, indiscriminando fantasias e crenças, da realidade externa.

... Nossas reações emocionais e freqüentemente também nossas ações não esperam pelo conhecimento, mas estão baseadas na crença. Em outras palavras, inclinamo-nos de início a tratar o crer como conhecer e crenças como fatos (Britton, 2003: p.29).

Apresento agora o conceito de manicômio mental desenvolvido por Pelbart (1989) e o associo com o conceito de Campos, G.W.(1998), o qual se refere a um mecanismo inconsciente (apesar de não utilizar este termo), que atribui à cultura social dominante dentro de uma instituição, que faz manter as práticas manicomiais, mesmo após a transformação das estruturas físicas. Esses fenômenos apontam para o fato da reforma psiquiátrica só ser possível a partir de um trabalho de auto-reflexão de cada profissional e equipe, independente de qual função exerçam, para conhecer, reconhecer e questionar seus valores e crenças, avaliando como essas são observadas na interação entre epistemologia e práxis.

A superação do manicômio mental que segundo minha forma de interpretação, refere-se à loucura dentro de cada um de nós, só é possível a partir da superação da posição depressiva (no caso das equipes) e de seus mecanismos característicos, com o desenvolvimento de uma capacidade de convivência harmoniosa com as idéias novas, com as mudanças, desde que estas estejam de acordo com uma idéia de potência relativa e não absoluta - onipotente, portanto narcísica e sem sintonia com a realidade externa.

Para isto, o essencial é um investimento maciço nas equipes interdisciplinares, de forma a estimular relações mais baseadas na cooperação e na aceitação das diferenças, que devem partir da convivência entre as diferentes abordagens teóricas entre os próprios profissionais, de forma a possibilitar que estes gastem menos tempo disputando entre si para descobrir quem se encontra de posse da verdade absoluta a respeito do conhecimento sobre o ser humano, sem se darem conta de que verdade absoluta, parafraseando Bion, é um "pensamento sem pensador". Somente a partir disso se poderá buscar, o que Pelbart chama: uma modalidade inédita entre o pensar, o viver e a desrazão.

Por loucura, que para facilitar chamarei aqui de desrazão, entendo uma dimensão essencial de nossa cultura: a estranheza, a ameaça, a alteridade radical, tudo aquilo que uma civilização enxerga como o seu limite, o seu contrário, o seu outro, o seu além (Pelbart, 1989: p.133).

Essa desrazão encontra-se atualmente depositada na figura do louco e, como dimensão psíquica e social essencial, não pode ser abolida, nem socializada, nem domesticada. O que significaria então, desconstruir o manicômio mental? Para Pelbart (1989) significa libertar o pensamento do império da razão que envolve um tipo de racionalidade carcerária, iniciado com Descartes no século XVII.

... Eu gostaria de sugerir desde já que não basta destruir os manicômios. Também não basta acolher os loucos, nem mesmo relativizar a noção de loucura compreendendo seus determinantes psicossociais, como se a loucura fosse só distúrbio e sintoma social, espécie de ruga que o tecido social, uma vez devidamente 'esticado' através de uma revolucionária plástica sócio-política, se encarregaria de abolir. Nada disto basta, e essa é a questão central, se ao livrarmos os loucos dos manicômios mantivermos intacto um outro manicômio, mental, em que confinamos a desrazão (p.134).

Esse é um árduo desafio coletivo, que precisa incluir a sociedade de forma geral, pois, ao percebermos, nomearmos e tolerarmos a loucura dentro de cada um de nós, dentro do desenvolvimento de uma práxis cada vez menos conflitante com as teorias, através de um processo de reflexão crítica contínuo de nossas dificuldades, dentro de uma noção coerente com os desafios provocados pela realidade externa, será possível retirar o louco da condição de "pessoa identificada como portadora da doença de toda uma sociedade", fazendo uma analogia à idéia de "paciente identificado como portador da doença familiar".

Poderemos, assim, iniciar os primeiros passos na construção de relações sociais que incluam as diferenças como menos ameaçadoras ao establishment, sem precisar, assim, negar as diferenças ou combatê-las.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARANTE, P. (Org.). Loucos pela vida: A trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: SDE/ENSP, 1995.

AMARANTE, P. Psiquiatria social e reforma psiquiátrica. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1994.

ANDRADE, M.C. CERSAM: Espaço novo para articulações contemporâneas de psiquiatria. Revista do CERSAM Leste: A clinica e seus impasses , 1998.

ANZIEU, D. (1984). O grupo e o inconsciente: o imaginário grupal . Trad. Anette Fuks e Hélio Gurovitz. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1993.

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Última Atualização ( 23 de junho de 2008 )
 
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